O significado de uma estrela

tina2Há uns anos atrás, resolvemos voltar para nossa casa em Atibaia por um tempo, devido o aluguel alto que pagávamos aqui em Sampa. Amo aquela cidade e a tranquilidade que ela me traz. Um dia antes do meu aniversário, me perguntaram se eu não queria uma cachorrinha, pois ela iria morar num apartamento muito pequeno. Eu aceitei e ela me aceitou. Bom, mais ou menos assim. Em casa, Tina ficava me observando de longe e tinha um certo receio quando eu me aproximava dela.

Andando pela cidade, que trazia mil lembranças da minha infância, entrei na biblioteca. Lá estavam aquelas mesinhas e cadeirinhas pequenas e lembrei do dia que minha mãe me levou ali e folheamos o livro O Pequeno Príncipe. Eu não sabia ler, mas lembro dos desenhos.
Resolvi que deveria ler ele de verdade e pedi para retirá-lo. Me disseram: “É que aqui é seção infantil, mas você pode retirá-lo na seção de adultos mesmo.” Eu queria tanto reviver aquilo e sentar nas mesinhas pequenas, que me confundi nas seções!
Então fui para casa com o livro, sabia mais ou menos do que se tratava, mas não tinha ideia que aprenderia tanto com ele.
Todos os dias, durante aquela semana, me sentei na mesma cadeira no quintal e lia uma parte do livro. Tina ficava bem longe de mim, dormindo. Conforme foram passando as páginas e os dias, eu gostava mais. Cheguei naquela parte do livro, que o autor fala da relação do príncipe com a raposa, quando um se torna eternamente responsável por aquilo que cativa. Comecei a prestar atenção, que a cada dia Tina dormia mais perto da minha cadeira. Até que ela dormiu embaixo da cadeira e um dia se sentou no meu colo! Me assustei! Mas me fez pensar como ela parecia uma raposa e que talvez eu também tivesse cativado ela, como na história.
Terminei o livro, virei a última página e lá estava o desenho de uma estrela feita pelo autor. Lembrei também do quanto minha mãe gostava de estrelas e me contava o nome delas quando olhávamos para o céu.
A estrela virou tatuagem, para eu lembrar da minha raposinha e da minha mãe. E lembrar de como um desenho tão simples pode fazer história, como fez Saint Exupéry.
tina“– É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.”.
Trecho do livro O Pequeno Príncipe – Saint Exupéry